Sobre Bolsonaro, Trump e tensões sociais e econômicas

A política é a arte de se aliviar tensões. Sendo o sistema social finito e a distribuição da renda derivada de um jogo intrincado de poderes, cabe ao político saber transferir excessos para déficits e isso sempre é uma tarefa penosa. Afinal, sendo o sistema fechado, sem espaço vazio, o alívio de uma tensão de um lado representa um aumento de tensão do outro.

As tensões se revelam basicamente de duas maneiras. A primeira (mais civilizada e, por isso mesmo, mais sublimada) se dá no campo político institucional. Fazem parte disso as instituições formais: o parlamento, o judiciário e outros grupamentos típicos das sociedades modernas que vai de clubes de futebol passando por lojas maçônicas e sindicatos de toda a espécie.

A segunda (mais primitiva e, por isso, mais inconsciente nesse sentido) se revela surda em degeneração, uma vez que não ganha necessariamente expressão política possível e, assim, não constitui um discurso que possa ser debatido propriamente. Deste segundo grupo de tensões, podemos incluir a violência urbana generalizada ou o desejo por armas e o discurso belicoso. São expressões de uma tensão (energia) que, não tendo por onde escapar, rompe o tecido político quando não mais possível sua repressão.

Resultante óbvia

Foi por isso que Trump ganhou. Dou risada de quem acha que a eleição dele foi “uma loucura”. Foi antes, isso sim, a resultante óbvia de um acordo mundial que os EUA não poderiam mais dar conta de honrar, e que criou distorções internas relevantes nos últimos anos.

Isto já foi objeto de comentários anteriores meus, mas posso resumir o caso da seguinte forma: os EUA prometeram para o mundo no pós-guerra que iriam ser o “importador de última instância”, ou seja, os EUA iriam rodar, no limite, déficits comerciais e, assim, iriam manter a Demanda Agregada global num patamar elevado, gerando crescimento econômico para seus aliados do “mundo livre”.

Para poder rodar déficits comerciais, os EUA iriam pagar suas compras com um papel verde, que eles mesmos iriam imprimir, e todo mundo iria aceitar. Isso porque os EUA têm o maior exército do mundo e estamos conversados.

O acordo rodou bem por anos, mas quando Nixon mandou às favas os bons modos bulionistas e decidiu, de maneira unilateral, não dar mais lastro em ouro ao Dólar, o poder excessivo começou a fazer roer as bases do próprio acordo global. O discurso liberal dos EUA – que, no fundo, sempre foi uma estratégia para ampliar seu próprio poder sobre os demais países que não podiam imprimir aquele papel verde – abriu espaço para a própria destruição do acordo firmado nos idos de 1944, em Bretton Woods, que visava criar estabilidade monetária global, uma vez que um dos canais de transmissão e intensificação da crise de 1929 que gerou as bases para a segunda grande guerra foi justamente desvalorizações competitivas das moedas ao redor do mundo.

Para demandar tudo de todos, os EUA precisavam criar e manter uma poderosa classe média. Com a renda dos salários elevada, haveria demanda suficiente e, assim, a máquina girava e o acordo da Pax Americana era garantido.

Contudo, a globalização exportou “os bons empregos industriais” dos EUA para o mundo inteiro, e a combinação de mão de obra barata na China com capital de ponta dos EUA e outros países criou, num primeiro momento, um pequeno milagre. O preço dos bens industriais despencou e, assim, a renda real dos americanos e europeus subiu, uma vez que poderiam se empanturrar com roupas e TV de led praticamente de graça, em termos relativos.

Mas todo crédito gera um débito e, depois de anos de exuberância irracional, a conta veio.

Como os empregos bons haviam sido exportados para as fábricas da Ásia e do México, o salário em proporção da renda total caiu por lá e, assim, os EUA se viram forçados a elevar a renda da população via uma inflação de ativos. Ou seja, cortaram os juros de tal sorte que os preços de imóveis, títulos de toda espécie e ações subissem criando assim um efeito riqueza generalizado.

A primeira bolha séria foi a das empresas ponto com. A segunda, sabemos bem, foi a imobiliária. O presidente Obama bem que tentou convencer os chineses a deixar sua moeda se valorizar quando os juros viraram pó nos EUA, mas os chineses disseram não. Pequim não queria assumir o papel de “importador de última instância” que os EUA haviam prometido ser e ao colar o Renminbi ao Dólar deixou no colo de Washington a batata quente do fim do modelo de crescimento norte-americano baseado na moeda.

O FED (o banco central norte-americano) fez o que tinha que fazer: continuou a produzir toneladas de papel verde, pois sabia que o único lastro suficientemente grande que hoje os EUA têm é seu poderio militar que valida a assinatura no papel verde e a foto de George Washington.

Impacto na classe média americana

No meio tempo, a tradicional classe média americana (essa sim tradicional e média de fato) se viu sem emprego, nem renda, depois do estouro de duas bolhas. Sem ter nada a perder, o americano médio elegeu aquele que prometia reverter a globalização e criar uma América para os americano,s uma vez que tanto Republicanos quanto Democratas haviam sacrificado a classe média, em nome dos interesses da globalização e do poder mundial dos EUA.

Trump representa a volta, ou a tentativa de volta, para o “verdadeiro” valor econômico dos EUA: sua inquestionável capacidade de produzir armamento. Não por acaso, mesmo sem saber, os defensores de Trump adoram armas, são no geral racistas e contra a globalização.

Trump trouxe um alívio para aquela tensão. Mas, apesar do seu esforço em reverter os acordos feitos depois da grande guerra (sair da Unesco e quase destruir a OTAN, no início do ano, são alguns sinais deste projeto), ele não conseguiu ainda e está fazendo o que os EUA faz melhor: imprimir dinheiro.

Tendência no Brasil

Jogar os juros para baixo não é um problema, desde que se saiba o que fazer com essa “energia livre” nova no sistema e o mundo carece de lideranças capazes de fazer canalizar essa energia para um projeto comum. Obama foi até uma esperança, mas sua potência durou pouco. Com o mundo “sem futuro” (e isto que significa taxas de juros em zero) depois da crise de 2008 caberia à Washington, Berlim ou Tóquio liderar um projeto eles mesmo de investimento criando o futuro, mas não houve consenso de quem poderia fazer. Esta é uma questão política e tem relação ao acordo global de hegemonia.

Chegamos ao Brasil. A tradicional classe média viu seu poder de compra corroer com a elevação dos preços de serviços nos últimos anos

Chegamos ao Brasil. A tradicional classe média viu seu poder de compra corroer com a elevação dos preços de serviços nos últimos anos; com a renda da empregada doméstica subindo a taxas maiores que a da classe média. Isto significava uma queda da renda real da classe média. O aumento do consumo doméstico poderia ter se traduzido em investimentos recordes – e até subiu muito – mas exportamos consumidores para o exterior via turismo ou via importações de mercadorias e serviços uma vez que deixamos o Real se apreciar, o que aliviou por certo tempo a queda de renda real da tradicional classe média.

O grande perdedor dos anos PT foi a tradicional classe média alta, que continua sem renda para voltar ao antigo padrão de consumo e sem patrimônio para se beneficiar da queda dos juros.

Temos assim uma tensão dentro da tradicional classe média que terá que ser aliviada; cabe saber de onde se tirará o excesso de energia.

Temos assim uma tensão dentro da tradicional classe média que terá que ser aliviada; cabe saber de onde se tirará o excesso de energia.

Estamos optando pela diminuição do Estado e, muito provavelmente no ano que vem, iremos estourar o teto e, assim, a máquina pública será impedida de contratar mais funcionários ou reajustar salários. Isso implica dizer que teremos uma diminuição da renda real dos mais pobres que usam os serviços públicos de maneira mais intensiva que a classe média.

Mas tal qual nos EUA, o problema persiste. Ao ajustar a máquina pública, haverá também uma queda de renda da “tradicional classe média”, uma vez que o funcionalismo público é parte importante da classe média e, também, porque a classe média consome parte dos seus serviços, como é o caso das universidades públicas ou segurança.

A resultante óbvia desse processo será uma escalada da violência urbana (nem preciso lembrar que o ano começou com rebeliões em presídios e greve de policiais) e o uso sistemático do exército é apenas o reflexo da tentativa de evitar a degeneração da tensão do segundo tipo como descrito acima.

O Bolsonaro pode se qualificar como alguém que crie alívios à classe média (fornecendo “segurança” e renda real através da “adequação da renda da camada mais pobre) e a variável de ajuste não será a emissão de dinheiro como nos EUA, mas sim a emissão de dívida pública – que é uma emissão monetária – mas com conta futura. Vamos fazer o que fazemos melhor: empurrar o problema para frente transformando nossas incontáveis contradições em NTN-B.

Este é o sentido mais radical e correto de dizer que o Brasil é o país do futuro: o Brasil é um país “no” futuro.

O ano de 2018 será um ano de ajuste de contas e o balanço social tem um passivo muito grande. O Brasil sempre irá flertar com o populismo, enquanto persistir a distribuição de renda neste patamar e isto é importante para colocarmos em perspectiva as eleições do ano que vem.

O ano de 2018 será um ano de ajuste de contas e o balanço social tem um passivo muito grande. O Brasil sempre irá flertar com o populismo, enquanto persistir a distribuição de renda neste patamar e isto é importante para colocarmos em perspectiva as eleições do ano que vem.

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André Perfeito
Economista formado pela PUC/SP e mestre em Economia Política pela mesma instituição. Com especialização em econometria pela FIPE, faz projeções para os principais agregados econômicos, tendo conquistado prêmios pela sua assertividade (TOP 5 Banco Central do Brasil, Projeções Agência Estado e terminal Bloomberg). É economista-chefe e exerce função de economista sell side, fazendo a ponte com os clientes institucionais e pessoas físicas.