Introdução à Economia Monetária – Juros e tempo: uma relação instável

Às vezes, contamos certas mentirinhas para facilitar o entendimento, ou mesmo para evitar que tenhamos que explicar certas coisas mais constrangedoras. Dizer que os bebês vêm das cegonhas é um jeito para disfarçar o óbvio, criando uma história tão fantástica que a questão em si fica fora do alcance.

Uma mentirinha desse tipo também é dizer que a Renda Fixa é, mas que coisa, fixa… Como veremos, não há nada fixo no mundo e dizer que Renda Fixa é fixa é algo muito pouco preciso.

Como falamos no artigo anterior (Juros: o Yield e Bond ), os juros são apenas o reflexo invertido do preço do título. Quando o preço do título cai, isso implica dizer que seu juro subiu, e quando o preço do título sobe, os juros caem. A questão central é saber que o título e os juros refletem a percepção geral e as condições gerais de liquidez em torno do objeto que estamos lidando.

Para simplificar, vamos tratar de títulos da dívida pública brasileira, que você pode comprar facilmente no Tesouro Direto. Para facilitar ainda mais, vamos tratar de títulos prefixados (que você contrata a taxa de juros na data da compra).

Com base no site do Tesouro Direto (em 27/11/2017), um título prefixado com vencimento em 1º de janeiro de 2023 pode ser adquirido podendo pagar, no vencimento, 10,02%. Mas reparem que interessante: a rentabilidade acumulada bruta em 12 meses deste mesmo título está em 23,74%. Se você tivesse comprado um ano atrás, este título poderia ter vendido este mesmo título com um ganho bruto de mais que o dobro da taxa negociada hoje.

Por que isso ocorre?

Vamos por partes. Um ano atrás, a taxa básica de juros (Selic) estava em 14%. Hoje está em 7,5% e com uma sinalização clara que pode ir para 7% ou até mesmo 6,5%. No entanto, a Selic é a taxa de juros de curto prazo, a meta que os operadores da Mesa de Mercado Aberto do Banco Central têm que mirar para calibrar a oferta e a demanda desses títulos, de tal sorte que o preço médio dos títulos entregue uma taxa de juros nesta faixa (vamos falar melhor sobre isso no próximo texto). No caso, estamos falando de um título que vence em 2023 e, para tanto, precisamos saber como estavam sendo negociados os títulos com este vencimento.

Hoje o depósito interbancário com vencimento em janeiro de 2023 rende 10,08%. Um ano atrás, a rentabilidade desse mesmo título era de 12,25%. Se os juros caem, já sabemos, isso quer dizer que o título que você tem em mãos subiu de preço e, assim, é possível vender esse título com um bom ganho, mesmo antes do vencimento e até mesmo com um ganho superior ao que iria pagar no vencimento. Claro, você pode levar o título até o fim, e ganhar o que foi acordado, mas pode não ser uma boa decisão se a diferença for muito grande.

Movimentos distintos

Reparem que aqui operam dois movimentos distintos. Os juros que foram contratados oscilam – e muito – ao longo do tempo. Sendo assim, dizer que um título é de Renda “Fixa” só se refere no caso de se levar até ao vencimento, se você tiver que se livrar deste título antes, você pode até perder dinheiro. Outra coisa relevante é que os motivos que governam o curto prazo não são os mesmos que governam o longo prazo.

Os juros com vencimento até o final de 2018 estão caindo. Depois deste prazo, começam a subir. Isso ocorre porque os investidores entendem que, até o fim do atual mandato do presidente Temer, as reformas tendem a acontecer. Depois disso, não se sabe: logo, o risco aumenta e, com isso, o preço do título cai, fazendo que seu juro aumente. Reparem que os juros estão altos depois de 2018, uma vez que se assume que não se fará grandes reformas. Mas, se por acaso um candidato pró-reformas ganhar, a tendência é que os juros caiam e, assim, os preços dos títulos com vencimento subam ainda mais.

Viram? A Renda Fixa é móvel, e a única garantia é que haverá alguém para honrar o valor no vencimento; acreditamos que o Estado irá existir e honrar o que acertou hoje. No geral, dizemos que os títulos públicos são “livres de risco” por outra simplificação (mais outra mentirinha); dizemos isso, porque se o Estado quebrar, implica dizer que quase todas as outras empresas quebraram antes. Logo, o Estado é o último a quebrar, o que não é necessariamente verdade.

As opiniões oscilam de maneira não uniforme ao longo do tempo e através do tempo (dos diversos vencimentos por assim dizer), as impressões mudam com igual facilidade quanto ao que pode acontecer tanto quanto na Renda Variável.

Ao investir em títulos de Renda Fixa, você pode ficar com a consciência tranquila quanto ao que irá receber no vencimento. Mas, entre hoje e o vencimento, muito pode ocorrer.  É isso que as pessoas não querem ver, e acreditar que o título é fixo.

Tem gente que prefere a história das cegonhas…

Leia também http://gradualmais.com.br/2017/09/06/introducao-a-economia-monetaria-juros-o-yield-e-bond/