Papa Francisco e os refugiados: lições para gestão de pessoas

Estamos vivenciando uma crise sem precedentes em relação ao número de refugiados. Os dados apresentados pela ONU são assustadores. Milhares de pessoas são obrigadas diariamente a abrir mão de muito mais do que seus sonhos.

Há quase cinco anos, o Papa Francisco faz do destino dos refugiados um dos temas fundamentais de seu pontificado, demonstrando que, apesar dos tempos serem difíceis, devemos continuar em frente. Na noite de Natal, ele pediu acolhimento a refugiados durante a Missa do Galo.

Segundo o Evangelho, Maria e José estavam em fuga, devido a um decreto do imperador Herodes. Mencionou o Papa: “Ninguém deve sentir que não tem lugar nesta terra”, solicitando aos fiéis para “varrerem a indiferença” e “oferecerem hospitalidade e ternura”.

Imagine se, de uma hora para outra, sua casa fosse atacada ou bombardeada e sua família tivesse apenas um minuto para sair dali correndo, o que você levaria? Difícil decidir? Essa pergunta não é uma suposição, mas uma realidade. Mais de 60 milhões de pessoas ao redor do mundo tiveram que decidir repentinamente o que levar e o que deixar para trás em nome da sobrevivência. Na grande maioria das vezes, a alternativa foi levar apenas a si mesmo, deixando para trás familiares, objetos, documentos, memorias, sonhos e afetos.

Mais que acolher

Acolher é fundamental, mas é apenas o primeiro passo. Devemos pensar na causa dos refugiados de maneira ampla e abrir caminhos para sua inserção no mercado de trabalho.

Os refugiados precisam de trabalho para geração de renda e para não ficarem a mercê do poder público. O trabalho é, também, uma maneira de se inserirem socialmente, emocionalmente e profissionalmente no lugar onde estão refugiados.

O universo corporativo talvez seja uma das vias possíveis de inserção que não passa exclusivamente pelo aspecto social – que é fundamental, mas tendo também no radar os benefícios para a empresa em termos de resultados tangíveis e intangíveis.

A garra, a força de vontade e o entusiasmo para fazer a diferença são elementos comportamentais que diferenciam o perfil desses candidatos. Somado a tudo isso, um ponto talvez não tão conhecido do público é o nível de formação técnica dessas pessoas. Centenas de refugiados que chegam às portas do Brasil estudavam em universidades ou tinham bons empregos antes de serem forçados ao exílio devido à guerra, segundo dados da ONU.

Inserir os refugiados nas empresas não é caridade e pode ajudar a empresa a atingir bons resultados. Muitos deles são talentos invisíveis que precisam de integração.

Pensar globalmente, promover a diversidade, gerar um ambiente colaborativo, favorecer o clima, ter uma postura socialmente responsável e melhorar os resultados de uma empresa são alguns dos motivos para mobilizar a área de gestão de pessoas a aceitar o convite do Papa Francisco e enxergar os refugiados com mais compreensão e menos preconceito.

Desafios fazem parte do processo

Claro, nem tudo são flores. Dificuldades e desafios são inerentes a esse processo. Sensação de não pertencimento, angústia, saudade da família, da cultura, da comida e das cores que só encontramos no lugar onde nascemos fazem parte do cotidiano dos refugiados. Isso, de alguma maneira, impacta também na estrutura emocional de cada um deles.

É necessário ter um olhar cuidadoso, alinhado a resultados. Oferecer a oportunidade, promover integração, levar em consideração as diferenças culturais e instabilidades emocionais não significa ter uma postura assistencialista. Os refugiados devem ter uma performance adequada às demandas apresentadas em suas atividades. Essa parceria é que vai gerar evolução para todos os envolvidos no processo.

O que fazer com esses desafios e possibilidades? Não há receita de bolo, mas os pilares “informação – capacitação técnica” e “comportamental – cidadania” devem estar presentes o tempo todo no apoio e na inserção dos refugiados no mercado de trabalho.

Uma crise sem precedentes precisa de respostas à altura. Um passo para frente e não estaremos mais no mesmo lugar. Vamos caminhar rumo a 2018? A boa notícia é que, além do Papa Francisco, tem muita gente boa, dedicada e envolvida nessa causa no mundo inteiro, e por aqui também.

Veja aqui alguns exemplos de organizações sociais que possuem alguns km rodados e podem ajudar a quem estiver disposto a dar vários passos por essa causa.

ADUS Instituto (http://www.adus.org.br/): oferece cursos de português, qualificação profissional, inserção no mercado de trabalho e campanhas para conscientizar a sociedade sobre a importância de acolher os refugiados. Destaque para iniciativa da Chef Bel Coelho, que desenvolveu um cardápio inspirado nas histórias e culturas dos refugiados para promover momentos de boas lembranças em almoços solidários.

Abraço Cultural (http://abracocultural.com.br/): promove a formação profissional de refugiados, para que eles possam ser professores de suas respectivas línguas de origem. Oferece curso de idiomas com refugiados.

Estou refugiado (http://www.estourefugiado.com.br/): atua na busca e inserção dos refugiados no mercado de trabalho e produção de conteúdo para trocar o preconceito por compreensão.

Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) (http://www.acnur.org/portugues/): conduz e coordena ações internacionais para a proteção dos refugiados e a busca de soluções duradouras para seus problemas.

OASIS (https://www.atados.com.br/ong/oasis-solidario): presta auxílio para solicitantes de refúgio; promove eventos que mantêm os refugiados (principalmente árabes) em contato com elementos de suas culturas; oferece aulas de português e promove o apadrinhamento familiar, que aproxima famílias brasileiras e famílias de imigrantes.

Cáritas Brasileira (http://caritas.org.br/): oferece acolhimento, orientação jurídica, acompanhamento das solicitações de refúgio e encaminhamentos para instituições afins, atendimento psicológico individual e em grupo, curso de português, e orientação e encaminhamentos nas áreas de trabalho, educação, saúde, documentação, capacitação profissional, cultura e lazer e geração de renda.